Algum tempo atrás, assisti o filme “Até que a sorte nos separe 3” e fiquei assustado com a quantidade de palavrões ditos pelo protagonista. Na história, Tino (Leandro Hassum) procura um emprego fixo, não obtendo sucesso, começa a fazer um bico no semáforo e é atropelado pelo filho do homem mais rico do país. Dentro deste contexto, é comum ouvirmos palavras de baixo calão em um longa-metragem voltado para a família brasileira.

Cada dia mais tem se tornado comum o uso de palavrão em filmes, novelas e músicas. Palavrão, segundo o Dicionário informal (http://www.dicionarioinformal.com.br/palavr%C3%A3o/) é definido como “um grupo de palavras que são consideradas, em meio a sociedade, vulgares e desnecessárias”. Numa sociedade distante de Deus, as pessoas são incentivadas e aplaudidas quando usam esse tipo de linguagem. O apóstolo Paulo já havia afirmado a esse respeito: “não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem” (Romanos 12.32b).

Para muitos o uso de palavrões já se tornou um hábito. O que é um hábito? Comportamento que a pessoa aprende e repete frequentemente. Tais palavras se tornaram tão comuns a algumas pessoas que já nem lhes causam mais estranheza, já foram inseridas em seus repertórios. Sem perceberem, usam palavras vulgares e acabam perdendo o controle. Benjamim Franklin costumava dizer que o animal mais terrível do mundo tem a sua toca atrás dos dentes.

Precisamos tomar cuidado com as palavras que usamos em nosso dia a dia. A Bíblia nos ensina a retirar do nosso vocabulário as palavras de baixo calão: “Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar” (Colossenses 3.8).

Conta-se que, certa vez, uma pessoa se dirigiu ao pastor com muitas dúvidas: “Pastor posso ir para a balada? Posso beber e fumar? Posso falar palavrão?”. Todas as vezes o pastor respondeu: “Pode”. Sem entender nada, a pessoa tirou a sua última dúvida: “Pastor, afinal, o que eu não posso?”. O pastor finalizou: “Entrar no reino de Deus fazendo tudo isso”.

Muitas pessoas não fazem uso desse tipo de linguajar e vivem muito bem. É possível viver sem falar palavrão. Todo cristão deve ter esse objetivo. Por isso temos que estar atentos às palavras que saem da nossa boca. Jesus afirmou que a boca fala do que está cheio o coração (Mt 12.34). Será que a nossa vida está cheia de coisas indecentes? Será realmente que nosso coração está cheio de vulgaridades? Thomas Brooks afirmou: “Conhecemos os metais pelo som que produzem e os homens por aquilo que falam”.

Às vezes, ouvimos até crianças falando palavrão. Possivelmente, seja porque ouvem na escola ou em casa e acabam repetindo de forma inocente esse comportamento. É triste saber que existem pais que acham o máximo o infante falar essas banalidades. “A vossa palavra seja sempre agradável” (Colossenses 4.6a).

As amizades também influenciam muito nesse danoso hábito. Nossas companhias são como os botões de um elevador, podem tanto nos conduzir para cima como para baixo. “Não se deixem enganar: as más companhias corrompem os bons costumes" (1 Coríntios 15.33).

 

CARTA DE TIAGO

Um dos textos bíblicos mais contundentes sobre o uso da língua é a carta de Tiago. O autor usa alguns exemplos práticos para nos mostrar o perigo que corremos ao fazer mau uso da boca, ou podemos dizer, das palavras, inclusive do palavrão.

1 - O exemplo do cavalo: “Ora, se pomos freio na boca dos cavalos, para nos obedecerem, também lhes dirigimos o corpo inteiro” (Tiago 3.3). Um animal violento, agressivo não tem função nenhuma. Mas quando se coloca um freio no cavalo, por exemplo, é possível conduzi-lo para onde quiser. Através do freio o instinto selvagem do animal é subjugado e ele se torna dócil e útil. Precisamos colocar freios em nossas palavras de baixo calão.

2 – O exemplo do navio: “Observai, igualmente, os navios que, sendo tão grandes e batidos de rijos ventos, por um pequeníssimo leme são dirigidos para onde queira o impulso do timoneiro” (Tiago 3.4). Um navio é dirigido por um pequeno leme. Sem o leme, o navio estaria desgovernado e colocaria em risco os tripulantes, os passageiros e as cargas que transporta. Com o leme, pode chegar em tranquilidade no porto escolhido. É também assim com o uso das palavras. Se a boca suja não for dominada, controlada, ela pode causar grandes estragos, ferir pessoas e trazer prejuízo financeiro.

3 – O exemplo da fagulha: “Assim, também a língua, pequeno órgão, se gaba de grandes coisas. Vede como uma fagulha põe em brasas tão grande selva” (Tiago 3.5). Você já percebeu que um incêndio de proporções tremendas pode ser causado por uma simples bituca de cigarro ou por um mero palito de fósforo? Aquela chama inicial é tão pequena que, se você der um sopro, ela se apaga. Agora, de que adianta um sopro ante um grande incêndio? Não adianta mais! O fogo, depois que se agiganta e se alastra, torna-se indomável e deixa atrás de si grande devastação. Assim é a pessoa que fala palavrão na hora da ira e da raiva. Pode fazer estragos imensuráveis.

4 – O exemplo do veneno: “a língua, porém, nenhum dos homens é capaz de domar; é mal incontido, carregado de veneno mortífero” (Tiago 3.8). O ser humano consegue domar os animais, porém não consegue domar a própria língua. A picada de um escorpião ou de uma cobra pode ser tratada, mas, muitas vezes, o veneno da boca é incurável.

5 – O exemplo da fonte: “Acaso, pode a fonte jorrar do mesmo lugar o que é doce e o que é amargoso?” (Tiago 3.11). Fonte na região da Palestina era um lugar muito precioso. A língua que usamos para falar palavrão é a mesma que usamos para louvar a Deus? Não é conveniente!

6 – O exemplo da figueira: “Acaso, meus irmãos, pode a figueira produzir azeitonas ou a videira, figos?” (Tiago 3.12). Não podemos colher figos de um espinheiro nem espinhos de uma figueira. A árvore produz fruto, e fruto é alimento. Quais são os frutos da nossa boca? Será que uma pessoa que tem boca suja consegue edificar alguém? Claro que não!

 

SEIS ANIMAIS DENTRO DE NÓS

            Existe uma história que nos ajuda a entender sobre o autocontrole da boca e das palavras chulas. Havia um senhor que morava numa casinha simples, rodeada de árvores e plantas. Um dia, um vizinho decidiu lhe fazer uma visita. O idoso foi muito receptivo e o convidou para entrar em sua residência. Depois de se sentarem, o ancião começou a falar de sua vida. Disse que não se sentia só, pois não tinha tempo para isso, sempre tinha muito trabalho a fazer. O vizinho ficou curioso, pois nunca o via trabalhando, já que era um senhor idoso e aposentado. Não tinha esposa nem filhos ou netos. Vivia isolado na sua singela casinha. Perguntou-lhe como era possível que, em sua solidão, tivesse tanto trabalho. Ele respondeu, depois de tomar um gole de café: “Tenho que domar dois falcões, treinar duas águias, manter quietos dois coelhos, vigiar uma serpente, carregar um asno e dominar um leão!”. Surpreso com aquela resposta, o vizinho falou: “Mas não vejo nenhum animal aqui na sua casa, senhor! Onde eles estão?”. Ele, então, explicou: “Todos nós temos esses animais! Os dois falcões se lançam sobre tudo o que aparece, seja bom ou mau. Tenho que domá-los para que se fixem sobre as coisas boas. São meus olhos! As duas águias ferem e destroçam com suas garras. Tenho que treiná-las para que sejam úteis e ajudem sem ferir. São as minhas mãos! Os dois coelhos querem ir aonde lhes agrada, fugindo dos demais e esquivando-se das dificuldades. Tenho que ensinar-lhes a ficarem quietos, mesmo que seja penoso, problemático ou desagradável. São meus pés! O mais difícil é vigiar a serpente! Apesar de estar presa numa jaula de 32 barras, a serpente está sempre pronta para morder e envenenar os que a rodeiam. Se não a vigio de perto, ela causa danos. É a minha língua! O asno é muito teimoso e obstinado, não quer cumprir com suas obrigações. Alega estar cansado, quer ficar acomodado e se recusa a transportar a carga de cada dia. É meu corpo! Finalmente, preciso dominar e amansar o leão. Ele sempre quer ser o rei, o mais importante. É vaidoso e orgulhoso. É o meu coração!”. Ao final da conversa de fim de tarde, o vizinho percebeu quanta sabedoria havia naquele senhor idoso! Quanta beleza e conhecimento guardados, só esperando um momento para serem compartilhados! Aprendeu que todas as pessoas tem que cuidar dos seis animais, porque eles habitam em toda a humanidade.

 

SUGESTÕES PARA SE LIBERTAR DO HÁBITO DE FALAR PALAVRÃO

1 – Estude versículos bíblicos que tratem sobre o assunto e tenha o claro entendimento que a Palavra de Deus condena esse hábito (Conferir: Cl 3.8; 4.6; Ef 4.29)

2 - Peça ao Espírito Santo em oração que o ajude a vencer esse pecado. Só Ele pode nos convencer e operar a obra da santificação.

3 - Peça para que seus amigos e familiares diminuam os palavrões. Se todos a sua volta falarem palavrões constantemente, eles serão má influência. Falar palavrão é um costume fácil de pegar e difícil de largar. Você não vai conseguir parar se todos a sua volta forem boca suja.

4 - Procure palavras substitutas para todos os palavrões que você costuma falar. Tente palavras comuns como ‘’droga” ou “porcaria”. Perceba o que diz o livro de Provérbios: “O que guarda a boca e a língua guarda a sua alma das angústias” (Provérbios 21.23).  

5 - Crie um “pote do palavrão”. Pegue um pote em casa e faça todo mundo saber e concordar que, quando ouvirem você falar um palavrão, você terá que colocar um real lá dentro. Ninguém gosta de perder dinheiro.

6 - Estudos mostram que para eliminar um hábito, leva-se cerca de 3 semanas, ou seja, 21 dias. Então, que tal fazer este desafio?  21 dias sem palavrão!

          

CONCLUINDO

Sim, é possível se libertar do hábito de falar palavrão. É uma ordem divina: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Efésios 4.29). Agora é com você!

 

Rev. Daniel, é psicólogo e pastor da IPI em Rondonópolis – MT. É casado e pai de 1 filho.
www.pastordanieldutra.blogspot.com

“Cogito, ergo sum.” A frase em latim foi originalmente escrita em francês pelo filósofo René Descartes, no século XVII, e tornou-se famosa e conhecida de todos nós: “Penso, logo existo”. Na verdade, sua frase inicial era: “Eu duvido, logo penso, logo existo”, com a qual procurava responder à dúvida que tinha de sua própria existência, dirimida por si mesmo devido ao fato de poder pensar, prova de que realmente existia! Pensar é uma faculdade humana que atesta nossa liberdade. São célebres as declarações de presos ou silenciados em sua liberdade de expressão de que o pensamento não pode ser aprisionado, por ser totalmente livre. Será mesmo?!

Chama-me a atenção como muitas pessoas, em certas circunstâncias, deixam de usar sua capacidade de pensar, de refletir criticamente, de ponderar, analisar e questionar aquilo que ouvem, vivendo sua vida como meros repetidores de conceitos que não passaram pelo crivo do discernimento! É surpreendente a maneira quase robótica com a qual tantas pessoas são seduzidas ou oprimidas por discursos de sucesso ou culpa a partir de púlpitos ou de programas de televisão que promovem um evangelho de vantagens ou de excessiva condenação. Assim, milhares de seguidores de Jesus vivem uma vida aprisionada, seja pelo conflito ou pela culpa de considerar seus próprios pensamentos e opiniões. Temem uma condenação superior e, por isso, não fazem uso da liberdade que têm, enganando-se e sendo enganados em ilusões e falsos conceitos. Da mesma maneira, sentimentos de ódio, rancor e vingança brotam como brotam de pensamentos recorrentes que se multiplicam no segredo da mente. Tudo isso, fora os delírios, paixões, repressões, conversas, estórias e tentações que acontecem onde ninguém, exceto Deus, tem acesso e compreensão plena. Verdadeiramente, a mente humana e os nossos pensamentos são um profícuo campo de uma batalha onde guerras são travadas diariamente, num silêncio perturbador. Perceber o que acontece nesse campo tão secreto pode fazer a diferença entre uma vida livre e abundante e uma vida aprisionada e atrofiada. Nosso objetivo aqui é refletir a respeito de algumas coisas que a Bíblia fala sobre as possibilidades boas e ruins promovidas por nossos pensamentos!

O QUE CABE AQUI?

Você certamente conhece o texto de Filipenses 4.8, que diz: “Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amigável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas” (NVI). Ou, na antiga versão de Almeida, “seja isso o que ocupe o vosso pensamento”. Então, tomando esse versículo como base para nosso estudo, pergunto: O que ocupa o seu pensamento? O que cabe aí na sua mente?! Pare e pense um pouco no que você pensa! Quais são os pensamentos que você acalenta antes de dormir? E quando acorda? No que você pensa enquanto dirige, quando ora, enquanto o pastor prega ou enquanto você canta. Para onde a sua mente vai quando você divaga? E sobre o que você pensa quando sua mente recebe memórias antigas, de gente que lhe fez mal – ainda que sem querer – ou  de gente que o desapontou? Como sua mente reage quando você se depara com o diferente, com o desconhecido, com aquilo que discorda? Que pensamentos têm o poder de alegrá-lo ou de entristecê-lo? De suscitar raiva, rancor, indignação? Quais geram ansiedade, desconfiança, preconceito, ceticismo? Quais pensamentos o aproximam da vontade de Deus e do desejo de se assemelhar a Cristo em suas atitudes, e quais tendem a afastá-lo dele e de seu amor por você? São tantas perguntas, não é? Pois essas e infinitas outras cabem todas bem aí, na sua mente, onde tudo começa!

PENSAMENTOS COMO FONTE DE ANSIEDADE

Os salmos, que são expressões honestas da alma humana, com toda sua gama de coerências e incoerências, revelam, por exemplo, o coração ansioso do salmista, no Salmo 55.2, “meus pensamentos me perturbam e estou atordoado”. A ansiedade não é apenas um processo emocional. Ela também decorre da multiplicação dos nossos pensamentos que seguem um padrão. Você já enfrentou isso?! Aqui, o salmista suplica a Deus em oração que o ajude a livrar-se dos pensamentos que lhe causavam perturbação por causa da perseguição do inimigo. Não é fácil livrar-se de pensamentos que geram ansiedade. Quantas pessoas, na hora de dormir, são acometidas pelas preocupações que se sucedem num emaranhado de pensamentos gerados pela ansiedade, sendo por esta retroalimentados. Aqui, o conselho de Paulo aos Filipenses ecoa de maneira desafiadora. Será que todos os pensamentos que temos são verdadeiros? Nossa mente não nos prega peças oriundas de nossa ansiedade e vice-versa?

Muitas pessoas nutrem pensamentos que não são verdadeiros. O filho demora em chegar, então, conclui a mente ansiosa: deve ter acontecido algo. Aí está o exemplo de um pensamento que não é verdadeiro em si mesmo. Não há fato que o comprove. Para que, então, acolhê-lo quando este surge ou mesmo deixar que ele se desenvolva? Mas, uma vez que ele surge, como livrar-se dele?! Para esse momento, temos a possibilidade (1Pe 5.7) de lançar sobre Deus toda a nossa ansiedade porque ele é um Deus que sempre cuida de nós!

Todavia, nem sempre conseguimos fazer uso da possibilidade que a Palavra de Deus nos dá de trocar o nosso padrão mental da ansiedade para o descanso e confiança no caráter de Deus. Muitas vezes, o legalismo religioso sussurra: “quem é de Deus não vive ansioso”. Quando alguém acolhe esse tipo de conceito em sua mente, além da ansiedade natural, da qual já tem dificuldade de se livrar, acrescenta ainda a culpa por não conseguir descansar em Deus, o que só aumenta a ansiedade. É importante lembrarmos que somos humanos. E que Deus se fez humano como nós e experimentou em Cristo nossas limitações e esquisitices. Nem todo comportamento consegue ser dirigido pela lógica. Não somos robôs programáveis. Deus não nos fez como se fôssemos um programa de computador. Somos uma complexidade maravilhosa e cada um tem um funcionamento diferente. Deus nos conhece. Conhece, inclusive a razões e motivações dos nossos pensamentos (1Cr 28.9) e, bem antes que nós mesmos, os detecta (Sl 139.2). Ele deseja caminhar conosco e nos livrar da ansiedade retroalimentada por pensamentos inúteis, não aumentá-la! Inverdades, legalismo religioso, ansiedade não precisam ocupar lugar em nossa mente!

A MENTE COMO FONTE DE DISCERNIMENTO

Além do discernimento espiritual como dom ou ação do Espírito Santo em nós, temos também a capacidade mental de perceber um comportamento ardiloso ou manipulador em determinado contexto. Houve tempos, num passado não muito distante, em que certas denominações religiosas criticavam o estudo da Teologia, alegando que esta era uma tentativa humana de discernir o que é espiritual, negando seu valor. Felizmente, isso já mudou! Porém, quando eu fui para o seminário, e até em algumas ocasiões durante o ministério pastoral, fui lembrado de que o saber humano poderia concorrer negativamente com o mover de Deus. Para algumas pessoas existe uma incongruência entre o uso do intelecto e o agir de Deus. Mas se Deus nos dotou de inteligência e capacidade investigativa e autônoma, como esta poderia se opor a ele mesmo?! Será que Teologia e Espiritualidade são oponentes?! Claro que não! Ou, pelo menos, não necessariamente! Aliás, a Reforma Protestante facultou ao homem e à mulher comum a possibilidade de ler e entender as Escrituras sem depender da interpretação oficial. Esse princípio divino da liberdade não pode deixar de ser usado, aceitando tudo o que se ouve sem nenhum questionamento. Quando Paulo discute acerca dos dons espirituais em 1 Co 12-14, ele registra como é importante que quem fala em outra língua seja compreendido. Ele próprio prefere edificar quem o ouve e entende em seu próprio idioma, do que simplesmente encantar seus ouvintes falando em outras línguas que ninguém consegue discernir (referindo-se, aqui, ao uso do dom de línguas sem o dom da interpretação de línguas). O foco aqui é: aprendemos as coisas de Deus, não apenas pela emoção, mas pelo uso da razão e do discernimento também. Paulo também nos ensina a julgar as profecias (o ensino) e a ficar com aquilo que é bom (1Ts 5.19-21). Dessa forma, ele abre espaço para o uso da crítica (no bom sentido) quando um ensino é dado. O livro de Atos dos Apóstolos mostra a postura crítica dos bereanos ao ouvirem os ensinamentos de Paulo e Silas: “receberam a mensagem com grande interesse, examinando todos os dias as Escrituras, para ver se tudo era assim mesmo” (At 17.11).

Nem tudo o que é proferido do púlpito, por melhor que seja a intenção do pregador, ou proferido pelos pregadores da televisão (cujas intenções nem sempre são confiáveis), deve ser tomado como verdade absoluta, sem passar pelo crivo da nossa consciência e conhecimento das Escrituras. É importante julgar e ponderar o que se ouve. Você não precisa julgar o pregador, mas deve julgar o que é pregado, confrontando o conteúdo que ouve de fontes estranhas ou desconhecidas com o caráter de Deus, revelado em Cristo, com o ensino global da Bíblia e com um mínimo de sanidade teológica. Quantas promessas, maldições, exageros, opressões e até estelionatos são feitos em nome de Deus! Quanta gente tem sua fé explorada, sua sanidade roubada, sendo manipulados por pregadores ávidos por dinheiro, fama e poder, simplesmente por não fazerem uso do discernimento, do raciocínio, da crítica, da desconfiança! Não precisamos ter medo de julgar o que ouvimos.

Deus nos deu a capacidade de pensar de maneira crítica e inteligência para discernir o que é ensino bíblico do que é manipulação e engodo. Portanto, não tenha medo de discordar, de debater, de perguntar, de investigar, de aprender, de ouvir outra opinião, de pesquisar. Isso é fazer uso da nossa capacidade de discernimento e crítica, evitando e rejeitando qualquer ensino opressor ou falso (Rm 16.17-18; 1Jo 4.1). Aqui, vale lembrar o versículo-chave do nosso estudo, com relação a acolher em nossa mente aquilo que é nobre e excelente. Uma palavra que não seja assim, dificilmente poderia ser atribuída a Deus, mas facilmente pode vir a ser fruto da loucura ou manipulação humana. Não tenha medo de rejeitar tal ensino.

QUESTIONAMENTOS E FÉ

A citação de Descartes, com a qual iniciei este estudo, traz um elemento sensível a nós, cristãos: a dúvida. A dúvida é um tabu em nosso meio. Somos afirmadores das certezas. Não damos muito espaço para a dúvida. Em meio a todas as nossas certezas, lidamos muito mal com quem nos aparece com dúvidas, desde as mais básicas até as mais estruturais. O que fazer quando duvidamos? É pecado duvidar, seja de Deus, ou de sua bondade ou de sua justiça em momentos turbulentos ou injustos demais? Os discípulos, quando viram Jesus pela última vez, ao receberem a grande comissão, o adoraram, mas alguns duvidaram (Mt 28.16-20); Tomé duvidou do relato dos discípulos quanto à ressurreição de Cristo, e este lhe dirimiu a dúvida (Jo 20.26-28). Os salmistas e os profetas manifestavam constantemente dúvidas e questionamentos diante de Deus, que eram sanadas ou abrandadas à medida que as expressavam com transparência e temor diante dele. A dúvida não é necessariamente ruim, pois nos leva a pensar e exercitar a nossa fé. A certeza de Tomé se deu com base em provas, mas Jesus disse que os que creram sem ter prova alguma, simplesmente como fruto da fé, eram felizes (Jo 20.29).

Nossa relação com Deus não é fruto de lógica, bons argumentos, coação, ou medo – e se for, algo está errado. Nossa relação com Deus está fundamentada na fé. Em crer em seu amor, na redenção por meio de Cristo e na verdade de Sua Palavra, sem a necessidade de provas. Se há provas, não é preciso fé! Portanto, mesmo que seus pensamentos questionem coisas que você não entende ou das quais até discorde, apresente-as a Deus sem medo, e fortaleça sua fé em seu caráter bondoso e na singularidade de Sua Palavra e da pessoa de Cristo, revelação plena de Deus. Nossa mente, por mais inteligentes que sejamos, é limitada para compreender Deus. Seria muita presunção se conseguíssemos. Existe um ponto até onde podemos chegar. O que passa dali é mistério. É o inexplicável. É tão amplo quanto o infinito. Esse é o lugar onde a razão se rende à fé mais singela, sem a qual não acessamos a infinita singeleza de Deus! Por isso, nutrir a pureza em nossos pensamentos, nos aproxima dele!

OS PENSAMENTOS E O MAL

Numa discussão com os religiosos de sua época, Jesus combate o legalismo religioso mostrando que o que degrada o ser humano não é o não cumprimento de todos os preceitos legalistas de uma religiosidade dissociada da vida, mas aquilo que está dentro de nós e que se manifesta como materialização das nossas ideias e pensamentos pecaminosos (Mt 15.16-20). Por isso, é importante que sejamos críticos de nossos próprios pensamentos, aprendendo a observá-los e a perceber para onde eles nos levam, que tipo de reação, ação ou desejos eles produzem e a ver no que eles nos tornam. Atribui-se a Martinho Lutero, grande reformador protestante, a frase: “Você não pode impedir um pássaro de pousar em sua cabeça, mas pode impedir que ele faça um ninho”. Isso significa que os pensamentos ou tentações surgirão naturalmente em nós, e não há nada que possamos fazer para impedir que surjam, mas sempre há algo que podemos fazer para impedi-los de ali permanecer e se instalar. Como?!

MENTALIDADE E ATITUDES DE CRISTO

O texto inicial de nosso estudo sugere que podemos escolher os pensamentos que depositaremos em nossa mente, evitando alguns que não produzirão nada de bom. Os pensamentos opostos aos que o texto propõe que pensemos deveriam ficar de fora: o que não é verdadeiro, nem nobre, o que é incorreto, impuro, etc. Paulo fala em levar todo pensamento cativo a Cristo (2Co 10.5). Isso pode significar submeter nosso pensar aos padrões de Cristo, não dando espaço – ou seja, não alimentando – a conceitos ou pensamentos que nos desviem do alvo de seguir as ênfases de Jesus e comprometam nossa paz com Deus. Você sabe quando seus pensamentos o aproximam ou afastam de Deus! Ele está sempre perto. Nós é que alternamos entre proximidade e distância, com base em nossas ações e pensamentos. Mas essa é uma tarefa grandiosa demais para o ser humano. É preciso algo maior e mais poderoso que nós: carecemos da ação do Espírito Santo, produzindo em nós o seu fruto (Gl 5.22-23) e renovando nossa mente e nossa maneira de ver a vida através da mudança de nossos conceitos. Ao escrever aos Romanos, Paulo roga que aqueles cristãos (bem como nós) se entregassem plenamente a Cristo e se deixassem transformar pela renovação de sua mente, para poderem experimentar  a boa, perfeita e agradável vontade de Deus (Rm 12.1-2). Portanto, mudar a forma como pensamos não é um mero exercício intelectual (ainda que seja parte do processo), nem mesmo uma simples reprogramação neurolinguística. Todavia, uma mudança das crenças e valores que estruturam nossa vida se dá por meio da ação do Espírito Santo em nós, abrindo nossa mente para percebermos as ênfases de Jesus, por meio de uma leitura atenta e nova dos Evangelhos, pedindo que Deus nos revele o que realmente significa segui-lo e servi-lo na atualidade e coloque em nossa mente uma nova maneira de pensar e agir semelhante a de Cristo (1Co 2.16, Fl 2.5-11).

CONCLUSÃO

A despeito de todas as demandas, desejos e aspirações da nossa sociedade, se aquilo que ocupa a nossa mente for o que Paulo sugere aos cristãos sofridos e perseguidos de Filipos, nossos pensamentos gerarão um viver sadio, com menos ansiedade, menos ingenuidade, mais liberdade, maior proximidade de Deus e de seu amor, mais semelhança e comprometimento com o estilo de vida de Cristo e mais intensa ação do Espírito Santo. Nosso mundo contemporâneo carece de cristãos inteligentes, críticos, antenados, mas ao mesmo tempo, sadios e cheios do amor de Deus, cujas mentes são regadas e permeadas de bondade, pureza, justiça, nobreza e excelência, que demonstrem a maturidade de um verdadeiro seguidor de Cristo Jesus.

Wanderley de Mattos Júnior é tradutor e intérprete

De modo geral, as pessoas gostam de uma vida em destaques e aparência. A propósito disso, muita gente da classe média e alta fica feliz com a citação de seu nome em colunas sociais de jornais de grandes e pequenas cidades, com exposição de fotos e narrativas de feitos ou participações em eventos, como jantares, festas de família, confraternizações, etc. Para as pessoas mais críticas, tudo isso não passa de superficialidades adotadas pelos que têm vida vazia, efêmera...