A Palavra de Deus como voz do Espírito Santo

Secretaria de Educação Cristã
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Leia: At 10.9-48

A Palavra de Deus como voz do Espírito Santo é, certamente, um dos temas mais polêmicos entre o povo cristão. Do lado da tradição católico romana, além das Escrituras, eles ensinam que Deus também se revela por meio da tradição apostólica, sendo o Papa o seu representante na terra. Do lado dos evangélicos, o ensino que virou tradição aponta para as Escrituras como nossa única regra de fé e prática. O ensino oriundo da Reforma Protestante, que “batizou” a frase “Livre exame das Escrituras”, ganhou popularidade entre os cristãos evangélicos.

A tática da Bíblia na mão do povo teve e tem seus pontos positivos e negativos. A pergunta sempre recorrente é: “Quem tem autoridade para tornar-se o intérprete oficial das Escrituras?”. A resposta do lado católico romano é a de que a autoridade para interpretar as Escrituras é da “Santa Sé”. Do lado da tradição reformada, a resposta é a de que a própria Bíblia contém em si mesma a interpretação, sob a iluminação do Espírito Santo. Entretanto, a interpretação das Escrituras, no dia a dia da pregação, fica a cargo do pastor.

Mas, será que essas duas tradições, católico romana e evangélica, correspondem àquilo que cremos ser a voz do Espírito Santo interpretada como Palavra de Deus? É isso que pretendemos verificar em nossa reflexão, conforme proposto no tema.

1. Discernir a voz de Deus da voz do coração não é para muitos.

O reformador Martinho Lutero viveu uma experiência mística que moldou radicalmente a sua vida: “No dia 2 de julho de 1505 Lutero se encontrava numa viagem de retorno para Mansfeld. Nesse dia foi acometido por uma forte tempestade e um raio lhe jogou ao chão, ferindo-o na perna. Esta experiência o impactou de tal forma que decidiu abandonar o estudo do direito e ingressar no Mosteiro Agostiniano em Erfurt”. Como resposta ao impacto que teve em sua vida, a partir desse episódio, Lutero passou a ler as Escrituras e, interpretando-as, sentiu-se desafiado a compartilhar com seus ouvintes o que Deus estava falando com ele. A narrativa da visão que disse ter tido é demasiadamente significativa, pois foi lendo as Escrituras, especialmente a Carta aos Romanos, que Lutero veio a compreender o verdadeiro sentido da graça de Deus. Outro reformador, João Calvino, ao falar de sua conversão, dizia que ela aconteceu de forma súbita. Ele afirmava que Deus tinha subjugado seu coração e o forçou a ser dócil, pelo poder de sua providência secreta. Tanto com Lutero quanto com Calvino, as ações que se seguiram após as suas experiências de encontro com Deus foram surpreendentes. O tempo e a história se encarregaram de mostrar que, de fato, eles viveram algo extraordinário com Deus. Muitas outras experiências místicas poderiam ser citadas, dando-nos simbolicamente uma clara noção de como Deus intervém, por meio do Espírito Santo, na vida humana, transformando-a radical e efetivamente. Poderíamos citar as experiências de Jonathan Edwards, pregador avivalista da igreja congregacional e missionário entre os índios americanos; John Wesley, clérigo anglicano e teólogo cristão britânico, líder precursor do movimento metodista e um dos dois maiores avivalistas da Grã-Bretanha; Ashbel Green Simonton, pastor presbiteriano e missionário norte-americano, que dedicou sua vida e vocação como missionário no Brasil.

Em todas essas experiências valeria a pena pesquisar cada detalhe sobre como aconteceram. Elas têm algo em comum: a forma como as pessoas foram usados como verdadeiros instrumentos nas mãos de Deus. E é nesse ponto que devemos colocar nossa atenção, ou seja, uma das formas mais eficazes para se perceber a voz da Palavra de Deus, falando ao nosso coração por meio do Espírito Santo, é observar o propósito para o qual Deus está falando com seus escolhidos. Deus se comunica com seus eleitos por meio do agir interno do Espírito Santo no coração da pessoa, convencendo-a da graça salvadora em Jesus. Num segundo momento, o mesmo Deus também se revela de modo especial aos seus escolhidos, para uma finalidade específica, determinada pelo próprio Deus (1Co 12.1-11). E é nesse ponto que, via de regra, alojam-se a maioria dos equívocos acerca daquilo que convencionalmente é descrito como: “Deus falou comigo”. A pergunta sempre intrigante é: “Como é que Deus falou com você?”. E a resposta mais segura é: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos” (Lc 4.18). Foram essas palavras que o próprio Senhor Jesus ouviu como voz do Espírito Santo que falou em seu coração desde o dia do seu batismo, conforme relato de Mc 1.9-11.

Portanto, quando dizemos que discernir a voz do Espírito Santo não é para muitos, estamos querendo dizer que o privilégio de ouvir a voz do Espírito Santo é reservado apenas àqueles que Deus escolhe e capacita para fazer tudo que está proposto apenas no coração do Senhor. Ao contrário disso, ao longo da história podemos verificar muitos personagens que se apresentaram como “portadores” de uma revelação especial de Deus e, em nome dela, dividiram a igreja de Cristo, realizaram grandes proezas em nome de Cristo, porém suas obras morreram com eles (1Co 3.9-15). Aliás, o próprio Jesus alertou-nos sobre os falsos profetas, inclusive dizendo que eles fariam grandes coisas em nome do Senhor, mas eles próprios seriam reprovados (Mt 7.15-23). Assim, a Palavra de Deus nos recomenda ter cautela diante de pessoas que dizem ter recebido “revelação especial”. Em 1Jo 4.1-6 temos um claro exemplo de como deve ser o nosso procedimento diante dessas circunstâncias.

2. A voz do Espírito quase sempre contraria a voz do coração.

Ao afirmar que a voz do Espírito quase sempre contraria a voz do coração, queremos dizer que quando Deus intervém em nossa vida, por meio da unção e autoridade do Espírito Santo, sempre o faz para atender aos seus próprios desígnios, isto é, Deus unge e habilita seus escolhidos para que estes realizem aquilo que está proposto no coração de Deus. E o mais curioso disso tudo é que, quando Deus se revela em nosso coração, há uma completa mudança na forma de vermos e pensarmos sobre tudo e sobre todos. É isso que encontramos na afirmação do profeta Isaías, conforme 11.1-4. Segundo as palavras do profeta, quando o Espírito repousa sobre os escolhidos, ele doa entendimento, conselho, fortaleza, conhecimento e temor no Senhor; como resultado, os escolhidos do Senhor, que foram agraciados pela voz do Espírito, passam a se deleitar no Senhor e julgar não mais segundo sua própria visão, segundo sua própria capacidade, mas  de acordo com a justiça recebida diretamente por meio da revelação do Senhor. Eis a diferença entre a revelação que vem do Espírito Santo e a revelação que é forjada no coração humano, que, como diz o profeta Jeremias, é enganoso e desesperadamente corrupto (Jr 17.9).

Um exemplo prático que nos permite perceber o quanto é real e transformadora a voz do Espírito Santo, pode ser visto em At 10.28-34. De acordo com o texto central de nossa reflexão, a visão que o apóstolo Pedro recebeu do Espírito Santo foi algo extraordinário, ou seja, essa visão revirou completamente a forma de Pedro julgar as coisas e as pessoas. Pedro jamais teria concebido a ideia de que um gentio pudesse passar por uma experiência tão especial quanto a de ser “ungido com o Espírito Santo”. Aliás, Pedro, apesar de ter sido ungido pelo Espírito Santo, conforme At 2.1-4, ainda carregava muitos conceitos puramente religiosos da tradição judaica, como por exemplo, “não comer animais impuros, não se misturar com pessoas de outra raça” (At 10.9-28). Entretanto, foi a voz do Espírito Santo de Deus, vinda como em um êxtase sobre Pedro, que transformou radicalmente a forma de Pedro enxergar e julgar as coisas. É por isso que ele disse: “Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de outra raça; mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou impuro” (At 10.28). Pedro disse ainda: “Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas” (At 10.34).

Portanto, esse depoimento do apóstolo Pedro, registrado em At 10.9-48, elimina qualquer dúvida que porventura exista quando falamos sobre a voz do Espírito Santo revelada sobre seus escolhidos. Esse depoimento ensina claramente que, quando somos ungidos e habilitados pelo Espírito Santo, o somos para realizar aquilo que é exclusivamente o propósito de Deus. Em At 10.28-34 temos o “antes e o depois”, isto é, antes Pedro pensava que não lhe era permitido ter comunhão com pessoas que ele achava impuras, mas depois da voz do Espírito Santo que falou em seu coração, Pedro foi convencido que jamais deveria considerar alguém impuro. Isso mostra claramente que a voz do Espírito Santo, de fato, transformou a visão de Pedro. E já que a Palavra de Deus é a nossa única regra de fé e prática, devemos nos submeter a ela e reconhecer com fé que este é o modo de a voz do Espírito Santo falar ao nosso coração.

3. A Palavra de Deus está sempre em harmonia com a voz do Espírito Santo

É importante dizer que a “Palavra de Deus” vai além do que está escrito na Bíblia; ou seja, é a partir do que está escrito, sim, mas também é por meio do Espírito Santo que teremos o real entendimento daquilo que é a voz do Espírito Santo. Em cada época e em cada situação, Deus falou de modo diferente às igrejas e aos indivíduos. Em um mesmo texto bíblico, proclamado por dezenas de pregadores, teremos também dezenas de enfoques diferentes e, cada ouvinte em seu coração terá um sentimento pessoal de como Deus falou com ele. É por isso que nós, de tradição reformada, somos herdeiros da fé que professa que o Espírito Santo é o único capaz de promover verdadeiro entendimento das Escrituras no coração humano.

Outro exemplo prático do que acabamos de afirmar acima encontra-se ainda no contexto da visão do apóstolo Pedro, conforme At 11.1-18. Nesse bloco temos a explicação de Pedro aos demais apóstolos que ficaram “perplexos” diante da notícia de que ele havia orado para que os gentios também recebessem o Espírito Santo (At 10.44-48). A explicação de Pedro ligou as Escrituras diretamente com a interpretação que veio da voz do Espírito Santo em seu coração. Conforme At 11.16, Pedro entendeu que o fato do Espírito Santo ter descido sobre os gentios estava fundamentado em um anúncio feito por Jesus, que diz: “João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo”. No verso 17, Pedro interpretou essa palavra de Jesus como uma revelação para jamais tentar resistir ao agir sobrenatural de Deus.

Portanto, quando de fato recebemos unção e autoridade vindas como voz do Espírito Santo, a consequência natural dessa experiência individual apontará, inevitavelmente, para a glorificação do nome do Senhor. O que vem da parte de Deus não confunde, não causa intriga, não gera quebra de comunhão e, mais ainda, o que vem de Deus jamais causará acepção e classificação de pessoas. Um exemplo prático disso temos em At 11.18: os demais apóstolos, ao ouvirem a explicação de Pedro, por mais “estranha” que pudesse parecer, “inexplicavelmente” foram convencidos em seus corações, receberam a paz interior e passaram a glorificar a Deus.

Conclusão:

A despeito do assunto que abordamos nesta reflexão ser motivo de diversas opiniões e até mesmo de conflito, consideramos adequado o caminho proposto em nossa reflexão. Através dos recursos bíblicos aliados ao coração sensível e ainda à humildade que cada um de nós deve ter, certamente conseguiremos progredir e amadurecer na fé, tendo nossa visão espiritual transformada pelo Espírito Santo de Deus a cada dia. Essa foi a experiência de Pedro, que ao ser tocado pelo Espírito Santo, não resistiu, antes, foi sensível à voz do Senhor, e a sua forma de pensar foi transformada pela unção do Senhor, vivida em um êxtase (At 10.10).

Rev. Adilson Filho
Secretário de Educação Cristã da IPI do Brasil