A vida de louvor

Secretaria de Música e Liturgia
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Assim que a moeda no cofre tilintar, a alma do purgatório irá saltar. (Johann Tetzel)

Tetzel, frade dominicano, andava de vila em vila para coletar recursos para a construção da basílica de São Pedro em Roma. A frase era cantada enquanto ele passava diante de uma multidão que, ávida, esticava seus braços com moedas, muitas vezes, tudo o que tinham, para livrar do purgatório seus entes passados e seus entes futuros, pagar pelos pecados passados e até conseguir um salvo conduto para pecados futuros. Tetzel era fruto do seu meio, um eficiente frade a serviço do que acreditava ser verdade. O que ele cantava enquanto passava pelas vilas se tornou tão conhecido que chegou aos nossos dias. Talvez não na rima, mas na essência.

Em nossos dias, muitos cristãos levam na própria vida a essência da canção de Tetzel. Encaram o louvor como uma forma de agradar a Deus para obter bênçãos. Não desejam o perdão dos pecados, mas desejam bens e benefícios imediatos. Se pudesse parafrasear Tetzel para os dias de hoje, diria: “Assim que tua boca começar a louvar, a benção que queres dos céus irá saltar”. De fato, louvar a Deus é fonte de bênção em nossa vida, não de bênçãos que nós queremos, mas sim das que Deus tem reservado para nós. Precisamos inverter esta lógica que não é exclusiva de igrejas neopentecostais, comunidades diversas ou adeptos da teologia da prosperidade, mas está presente no coração de muitos de nossos irmãos.

Martinho Lutero valorizava demais a música. Com o advento da imprensa, suas composições foram amplamente divulgadas e se tornaram o motor propulsor da divulgação dos ideais reformados. A mensagem do evangelho atingiu lugares longínquos por meio das canções, que se tornaram populares. A música foi uma das formas usadas por Deus para alcançar aquela geração e marcar, em definitivo, a vida daquelas pessoas. Que tipo de música? Basta olhar para a letra de Castelo Forte e já se vislumbra que não se trata de poesia qualquer, mas que aponta para a exaltação de Deus como Senhor e para a dependência dos homens ao poder divino.

Devemos tomar todo o cuidado para não fazer da música um elemento de entretenimento; ao contrário, a música é para adoração do Criador e para a edificação da Igreja. (João Calvino)

A música na Igreja não é para você ter uma sensação especial. Se você sente algo especial durante uma canção na Igreja que não seja o sentimento de total rendição e submissão a Deus, você está adorando a você mesmo, e não a Deus. O maior problema das canções no dia de hoje é que elas buscam, em sua maioria, satisfazer interesses pessoais, e não adorar a Deus. Encontrar, em meio a tanta música egoísta, algo que seja biblicamente correto e que exalte a Deus é trabalho árduo. Acontece que muitos músicos não estão interessados em garimpar tais canções, e outros tantos não estão interessados em ter bagagem bíblica para saber filtrar. “Se gravou e fez sucesso, então é bom”. Já ouvi esse argumento em diversos lugares.

Para Calvino, e também para Lutero, a música não serve a mim ou a você, ela serve a Deus. Consideramos extremada a posição de Calvino em afirmar que se deve cantar apenas o que está na Bíblia. Também acho extremado, em certo ponto, pois desconsidera a beleza da criação poética inspirada em textos bíblicos. Mas a posição de Calvino deve servir de direção para nós ao escolhermos quais músicas cantar e por que vamos cantá-las. A essência não é a satisfação pessoal, mas a adoração e o louvor a Deus, que são marcas de quem é edificado na Palavra, na comunhão e na oração.

A vida de louvor não se resume ao simples momento de cânticos na Igreja, ela começa com a prática da oração e em como, ao longo de toda a minha vida, eu me posiciono diante das pessoas: louvando a Deus em tudo, ou apenas confinando meu louvor a Deus a três ou quatro cânticos semanais. O que me remete a Romanos 1.17: “O justo viverá pela fé”. Viver pela fé é viver em constante louvor a Deus. Sem soberba e sem arrogância, mas com o coração posto naquele que é digno de todo louvor. Os reformadores tiraram o foco do louvor da pessoa da Igreja e o colocaram de volta na direção de Deus. É para adorar ao Criador que louvamos, é para sermos edificados que louvamos. A vida de louvor é uma vida em constante se prostrar diante de Deus.

 

Pela Coroa Real do Salvador
Reverendo Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo
Secretário de Música e Liturgia de IPIB
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