A loucura e os contrastes do Natal

Palavra da Diretoria
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O Natal de Jesus é marcado por situações e acontecimentos nada habituais. As formas e os meios pelos quais Deus realizou a encarnação de Jesus fugiu aos padrões convencionais e isso é maravilhoso, tornando o Natal ainda mais especial. Aliás, para todos os eventos salvificos podemos usar expressão de Paulo, loucura. Da manjedoura à cruz do calvário, tudo foi loucura para os que não creem.

Podemos começar perguntando por que Jesus nasceu em Belém e não em Jerusalém? O natural seria nascer na capital, no lugar onde está o centro do poder político, onde se erguia majestoso palácio do rei Herodes, bem com outras tantas repartições públicas. Jerusalém era a capital econômica. Nela estavam os melhores profissionais, os artesãos, os comerciantes. Jerusalém era um centro turístico e pessoas de quase todas as partes do mundo daquela época iam a Jerusalém, tanto por questões comerciais, mas principalmente por causa das festas religiosa dos judeus, conforme se vê em Atos 2.9-11. Jerusalém era um grande centro religioso, o lugar da adoração e do sacrifício. O templo atraía peregrinos de todo Israel e de outras nações. Por tudo isso, era natural que Jesus nascesse em Jerusalém.

No entanto, a estrela apontou e conduziu os sábios até Belém, uma vila que deveria ter no máximo uns 800 moradores naquele período. Além do mais, Belém não possuía nenhuma expressão nacional, fato esse atestado pelo profeta Miquéias, cerca de 700 a.C: “E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, ...” (Mq 5.2a).

Outro contraste digno de reflexão é o fato de Deus ter enviado mensageiros celestiais para anunciar o nascimento de seu filho Jesus somente aos pastores de ovelhas nos arredores de Belém, conforme Lc 2.8-20. É sabido que a profissão de pastor de ovelhas em Israel não gozava de prestígio, pelo contrário, era uma classe desprezada. Esses trabalhadores, sempre peregrinando atrás das melhores pastagens, não podiam descuidar de seus rebanhos, por isso, geralmente não guardavam o sábado e outras leis cerimoniais da religião judaica. Por essas e outras razões tais pessoas não podiam oferecer sacrifícios no templo sendo, por isso, consideradas impuras. Para muitos, os pastores eram pessoas de má fama, tornando-se desqualificadas para testemunhar nos tribunais judaicos.

Por que Deus não enviou seus anjos às autoridades de Jerusalém? É certo que havia entre os escribas, sacerdotes, fariseus e saduceus muitos religiosos que se orgulhavam em cumprir fielmente os preceitos da lei judaica, bem como tantos sábios e conhecedores profundos da Toráh, dos profetas e dos escritos sapienciais. Então, porque a nenhum desses Deus revelou o nascimento de Jesus?

Outros tantos contrastes como esses são encontrados na Bíblia, porém, cabe a nós discernir o que Deus quer nos ensinar com isso. Sabemos que Deus preza em cumprir as suas promessas, dentre elas, as que se referem ao nascimento do Messias, porém, Jesus deixou claro que o Reino de Deus não usa os critérios deste mundo, por isso creio que podemos fechar este assunto com o texto de Paulo: Para envergonhar os sábios, Deus escolheu aquilo que o mundo acha que é loucura; e, para envergonhar os poderosos, ele escolheu o que o mundo acha fraco. Portanto, como as Escrituras Sagradas dizem: “Quem quiser se orgulhar, que se orgulhe daquilo que o Senhor faz.” (1 Co 1.27, 29, 31).

Portanto, louvemos a Deus pela loucura do Natal, cuidando para não cairmos na vala comum do consumismo, mas adorando a Jesus com simplicidade, compartilhando seu amor e sua graça. Que nossas comunidades de fé, por toda América Latina, recebam a paz do Cristo que se faz presente entre os excluídos. Que o nosso Deus despeça de mãos vazias os ricos injustos e os poderosos opressores, pois continuam perseguindo e matando crianças inocentes, bem como oprimindo o pobre através dos tribunais e das decisões políticas nos centros de poder, onde impera a corrupção.

 

Que a paz e a misericórdia de Deus, inunde os corações dos homens de boa vontade.

 

Rev. Agnaldo Pereira Gomes
Pastor da 4ª IPI de Sorocaba
1º Vice-presidente da Assembleia Geral da IPI do Brasil